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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

.52 do tanto que tenho

Tenho nada
Absolutamente
Não tenho casa
Não tenho mãe
Tenho uma exceção
Tenho uma asa
Invisível e quebrada
Tenho dor
Tenho tristeza
Para vender
Muito barato mesmo
Tenho um coração
Usado
Não tão bem conservado
Despedaçado poucas vezes
Reconstituído a finos trapos
Ainda serve
Para sofrer
E para chorar
Sem devolução

segunda-feira, 7 de maio de 2012

passado

poder ver
você
menina
brincando de coisa inocente correndo gritando chorando-mentindo
seria tão interessante e bonito
eu morreria

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Coração


Coração,
Arrebata-me
Leva-me
Tira-me com violência
Priva-me de mim
Arranca-me dessa tumbice que sou
Tem-me irascível
Mas fala, grita, esbraveja
Cala-me a boca
Pra que tudo que eu deseje
Seja sua força
Mesmo à força

sábado, 14 de agosto de 2010

.42

Há patos na lagoa
E tem um que se afunda
Pobre pato...
Pobre pato?
Será o benedito?
Ou Ubaldo?
Que nada?
Nada disso
Ali quem ia era outro
Uma patota!
Nadando e mergulhando
Fazendo graça de afundar-se
Fingindo suicidar
Opa!
Que nada!
Patacoada...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

.55 Prosopopéia

Eu no meio e as paredes se apertam;
Deveríamos sê-las; como elas,
Romper as barreiras de janelas,
Portas, armários e outras duas paredes que lhes
                                                        [arrestam.

Pois sim, parece que minhas paredes
                              [apaixonaram-se.
O verde mais verde que existe,
O mais alegre e o mais triste.
Que dá verde com vermelho sangue?

Coisa extraordinária é a paixão!
Não há maior incêndio (falo de cadeira).
Faz-te diverso de ti, põe-te duplo em si.
Por isso, não me chamem tentando encontrar-me,
                                                [pois não estarei.

Aqui não sou eu; para o momento de eternidade:
Sou eu duas linhas, sou meu eu apaixonado,
Somos eu e a parede, somos o mesmo espaço.

sábado, 21 de novembro de 2009

.22 Que é de Nelson Rodrigues?

Que magia fora esta?
Ao meu coração que propina deste?
Não gosto d'outra, ora essa?

Não, por ti só
Temo que meu amor confesse

Qual o que? Será fato?
Que é de meu domínio?
Que me faço acordado?
Pensando em ti a essa hora?
Deu-se a melodia. Isola!

Ficar a depender de ti
É padecer sem ter porvir.

Comigo, não, violão.
Que sorte mais vil!
Sossega meu coração.
Calma no Brasil.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

.58 Ato

I (III) Contato em teu pelo caro Antes casto ora amado Assim risco tua odre E vou te estragando com tato Ao deitar tua pele em cardos Safo teu corpo e tua sorte Sigo decompondo tua pureza estreme Tu, culpa-se, range os dentes Soltas gemidos de morte II (IV) Sentes a vida n'alma Minha boca que saliva e lava Teus membros, teu tímpano, teu espaço Aborrota-se de prazer Esgota-se o não-dever Tudo parece certo e exato Tornas-te precisa Aguda, inconsciente, passiva Entregas-te, enfim, ao diacho III (V) De súbito, as ervas Envolvem-me, às pressas Invadem meu faro Arrepia-se a espinha Abrem-se os poros que irradiam Gotas de brilho próprio e vasto Neste lapso me tens Então sou teu escravo que vem Molhar teu colo... Encher teu vaso IV (VI) Agarro-te com violência Tu, sem resistências Deixa-te do medo incomum Solto tua carne e assisto Volto diante de teu riso E mordo teu pedaço cru Vejo teu cabelo embaraçar Tua loucura a aflorar Em movimentos dum lindo nu V (VII) Vou te desenhando com a face O dorso, o colo, todo e em partes Traço pernas, coxas e tornozelos Sigo por teus pés e insisto Deslizo, paro em teu umbigo Beijo-o com doce mimo e desvelo Deixo-te absortas marcas Busco teu braço, tua axila resvalada Encontro a intrepidez de teu belo seio

quarta-feira, 3 de junho de 2009

.59

louploup_by_gloria_aniela
Ter muito e de tudo

Eu quero todo

O mundo

Ser a natureza

Fria e bruta

Rodar o planeta

Conhecer tudo que cheira

Vida nossa, minha e tua


Ávido de novidades sou

Afoito sou inquieto

As ânsias não se acabam

Restam-me incompleto

Mesmo quando paro

Estou em movimento

Sôfrego impaciente

Sinto o tempo lento


Eu quero de tudo um muito

Seu amor fecundo

O quero imundo

Eu quero todo

O mundo

Fotografia do portfólio de Gloria Aniela

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

.46

precisas sentir

(distinguir)

teu tato é mais especial

deixa claro tua pele

waterhouse_the_awakening_of_adonis

já eu

sou mais olfato

embriagado pelo aroma

que de teus poros

verve

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ain't no ...

No time for you, baby
No time for me
No time for all
all that all we need

It won't work it out
My plans my needs my will
What can we expect?
I'd rather be here, still

Life ain't difficult
We, in fact, are too young
How can we be so mad?

Got no clock no nazi soup
I couldn't be myself
And time does not go back..